Infância de Deleuze (Trecho do Abecedário)





Entrevistadora: Para fechar a infância, senão não terminamos nunca, a sua parece ter tido pouca importância para você. Você não fala dela e nem é uma referência. Temos a impressão de que a infância não é importante para você. 


Gilles Deleuze: Sim, claro. É quase em função de tudo o que acabo de dizer. Acho que a atividade de escrever não tem nada a ver com o problema pessoal de cada um. Não disse que não se deve investir toda a sua alma. A literatura e o ato de escrever têm a ver com a vida. Mas a vida é algo mais do que pessoal. Na literatura, tudo o que traz algo da vida pessoal do escritor é por natureza desagradável. É lamentável, pois o impede de ver, sempre o remete para seu pequeno caso particular. Minha infância nunca foi isso. Não é que eu tenha horror a ela! Mas o que me importa, na verdade, é como já dizíamos: "Há o devir-animal que envolve o homem e o devir-criança". Acho que escrever é um devir alguma coisa. Mas também não se escreve pelo simples ato de escrever. Acho que se escreve porque algo da vida passa em nós. Qualquer coisa. Escreve-se para a vida. É isso. Nós nos tornamos alguma coisa. Escrever é devir. É devir o que bem entender, menos escritor. É fazer tudo o que quiser, menos arquivo. Respeito o arquivo em si. Neste caso, sim, quando é arquivo. Mas ele tem interesse em relação a outra coisa. Se o arquivo existe é justamente porque há uma outra coisa. E, através do arquivo, pode se entender alguma coisinha desta outra coisa. Mas a simples idéia de falar da minha infância — não só porque ela não tem interesse algum — me parece o contrário de toda a Literatura. Se me permite, vou ler uma coisa que já li mil vezes e que todos os escritores já disseram. Mas vi este livro ontem, eu não o conhecia. É de um grande poeta russo, Mandelstam. Eu o estava lendo ontem. 


Entrevistadora: Ele tem um nome lindo, poderia dizê-lo. 


Gilles Deleuze: Sim, é Ossip. Nesta frase, ele diz... É o tipo de frase que me transtorna. E o papel do professor é este: comunicar e fazer com que crianças apreciem um texto. Foi o que Halbwachs fez por mim. Ele diz que não entende que alguém como Tolstoi se apaixone por arquivos familiares. Ele continua. 


"Eu repito: a minha memória não é amor, mas hostilidade. Ela trabalha não para reproduzir, mas para afastar o passado. Para um intelectual de origem medíocre, a memória é inútil. Basta-lhe falar dos livros que leu e sua biografia está feita. Dentre as gerações felizes, onde a epopéia fala através de hexâmetros e crônicas, para mim, parece um sinal de pasmaceira. Entre mim e o século, há um abismo, um fosso repleto de tempo fremente. O que queria dizer a minha família? Eu não sei. Era gaga de nascença e, no entanto, tinha algo a dizer. Sobre mim e muitos dos meus contemporâneos, pesa a gagueira de nascimento. Aprendemos não a falar, mas a balbuciar. Foi só quando demos ouvidos ao barulho crescente do século e fomos embranquecidos pela espuma de sua crista que adquirimos uma linguagem".


Para mim, isso quer dizer que... Quer dizer de fato que escrever é mostrar a vida. É testemunhar em favor da vida, dos idiotas que estão morrendo. É gaguejar na língua. Fazer literatura apelando para a infância é tornar a Literatura parte de seu caso particular. É fazer literatura barata, são os best-sellers. É realmente uma porcaria. Se não se leva a linguagem até o ponto em que se gagueja — o que não é fácil, pois não basta gaguejar assim — , se não se vai até este ponto. Na Literatura, de tanto forçar a linguagem até o limite, há um devir animal da própria linguagem e do escritor e também há um devir criança, mas que não é a infância dele. Ele se torna criança, mas não é a infância dele, nem de mais ninguém. É a infância do mundo. Os que se interessam pela sua própria infância que se danem e que continuem a fazer a Literatura que eles merecem. Se há alguém que não se interessa por sua própria infância, este alguém é Proust. A tarefa do escritor não é vasculhar os arquivos familiares, não é se interessar por sua própria infância. Ninguém se interessa por isso. Ninguém digno de alguma coisa se interessa por sua infância. A tarefa é outra: devir criança através do ato de escrever, ir em direção à infância do mundo e restaurar esta infância. Eis as tarefas da Literatura.

domingo, 9 de outubro de 2011 by Unknown
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Paciência

Cada delicado detalhe a se construir
Nada frenético, nem tão rápido.
Apenas bem arrumado.
Complexo,
Mas torna-se bem feito.

(Imagem de Cedarseed)

terça-feira, 27 de setembro de 2011 by Unknown
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Psique maldita

Confesso
Que não perdi
Ainda
Toda a vontade
De ter
A fotografia
De toda
A humanidade



(Madredeus - Anseio)


(Imagem de Xxephan)

sexta-feira, 23 de setembro de 2011 by Unknown
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Passos /hm

"E agora caminho e predestino-me
Criando mitos
Formando flocos de neve que cai
Rumo a sensações anacrônicas."

domingo, 21 de agosto de 2011 by Unknown
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"Primo, por que ele inventa essas mentiras?"

"Bem, minha hipótese, é que ele é um entediado.
Pessoas entediadas criam mentiras e inventam histórias para tornar sua vida mais interessante.
E podem fazer até pessoas acreditarem nele, e podem até criar situações malucas... Apenas pela sensação de ver o que acontece."

 (Ailton Lucena Filho falando para sua prima, sobre um suposto comportamento de uma pessoa.)

quinta-feira, 18 de agosto de 2011 by Unknown
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Quais versos?


No fundo, eu não gosto de versos, quando ele mostra modestas vaidades.
Nem gosto de quem cita sentimentos com elas, quando é feito por só querer ser bela.
Na verdade, eu gosto é de versos sinceros
Ela nem precisa ser bela
É só ser sincera.

sábado, 13 de agosto de 2011 by Unknown
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Desatenção

Amigos, minha alma parece gritar
"Caminhe, caminhe
e o resto, não se importe."
Mas que isso não é o que eu quero, é verdade.

E dai vou eu

Vocês  me perguntam algo e eu
Há, o que dizia?
(hum, lembrei que tenho que fazer algo.)
O que?
(Puts, tenho que estudar aquilo)
Hãã?
(PERAE, ESQUECE O ESTUDO, PRECISO ENTENDER O QUE ELE FALARAM)
Repita!
(vamos lá, concentração...)
Repita mais uma vez.
(Ah, entendendo!)

Ah, sim. Entendi.
E explico a sua pergunta.

Assim vou apreciar alguma arte.
E observo.

AILTONVOCÊMEESCUTAAILTONAILTONMASSAESSEQUADROFILMELEGALQUALASUAOPINIÃONESTACENA?AILTONAILTONTÁMEOUVINDOALOALOAILTONTÁMEOUVINDO?AILTOOOOOOOOOOOOOOOOOONEITAAZUADOLOLAILTONSOUBEDOASSUNTOTALETALAILTONESTUDOUOLIVRO?AILTON?
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Assim um mundo em que sou tão concentrado, torna-se mais e mais fascinante. E algo espontâneo passa tão desastrosamente para mim.

terça-feira, 9 de agosto de 2011 by Unknown
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